ITAPEMA FUTEBOL CLUBE
🔴⚪🔵 Vermelho, Branco e Azul · O Tricolor do Estuário · Guarujá · São Paulo
Ficha Técnica
Guarujá em 1915: O Distrito de Paz e a Vila de Pescadores
Em 1915, ano de fundação do Itapema Futebol Clube, o Guarujá era um distrito de paz pertencente ao município de Santos, condição que mantinha desde 1893. A ilha de Santo Amaro, onde está situada a cidade, era acessível apenas por barcos e balsas a vapor que partiam do cais do Valongo, em Santos, e atracavam no Porto do Guarujá. A travessia consumia mais de uma hora, dependendo da maré. A população fixa do distrito não ultrapassava 5 mil habitantes, concentrados nas vilas de pescadores como Itapema, Vicente de Carvalho e Perequê. O Guarujá era um lugar de contrastes: de um lado, sofisticados veranistas frequentavam o Grande Hotel de la Plage; de outro, a população caiçara vivia da pesca artesanal, da cata de mariscos nos manguezais e de pequenas roças de subsistência. As ruas do interior da ilha eram de areia batida, iluminadas por lampiões a querosene, e as casas, simples, de pau a pique ou madeira.
Fundação: 11 de Novembro de 1915 — O Tricolor do Estuário
A fundação do Itapema Futebol Clube ocorreu em 11 de novembro de 1915, feriado do Armistício da Primeira Guerra Mundial, celebrado como o dia em que a paz foi assinada entre os Aliados e a Alemanha. Embora o Brasil só entrasse na guerra em 1917, a data já era simbólica para a colônia europeia em Santos e no Guarujá. A reunião aconteceu na pequena capela de São Pedro, padroeiro dos pescadores, que servia como centro comunitário do bairro Itapema. O pescador Manoel Francisco dos Santos, conhecido como "Seu Mané", foi aclamado como primeiro presidente, e outros 28 moradores assinaram a ata de fundação, entre eles José Bonifácio de Almeida (vice-presidente), Antônio Pereira da Silva (secretário) e João Batista (tesoureiro).
O nome "Itapema" — do tupi-guarani itá (pedra) + pema (esburacada, furada) — era uma referência às formações rochosas existentes na beira do estuário, em frente ao bairro, utilizadas como ponto de referência pelos pescadores. As cores vermelho, branco e azul foram escolhidas em homenagem às cores das velas dos barcos de pesca que pontilhavam o horizonte: o vermelho representava o sacrifício e a coragem dos homens do mar; o branco, a pureza e a paz das águas calmas; o azul, o próprio mar e o céu que guiava os pescadores. O primeiro uniforme, confeccionado com retalhos de tecido doados por um comerciante de Santos, consistia em uma camisa com listras verticais nas três cores, calção branco e meias azuis.
Os Primeiros Jogos e o Campo da Praia
O primeiro campo do Itapema FC era a faixa de areia batida da Praia do Itapema, delimitada por redes de pesca estendidas entre estacas de madeira. Quando a maré subia, o campo simplesmente desaparecia sob as águas, e as partidas tinham que ser interrompidas. Os primeiros adversários eram times de bairros vizinhos, como o Vicente de Carvalho FC (fundado em 1912) e o Guarujá AC. As partidas eram disputadas com bolas de couro cru, costuradas manualmente por um sapateiro local, e os uniformes, quando existiam, eram camisas de algodão tingidas artesanalmente com pigmentos vegetais. O futebol, naquele contexto, era menos uma competição e mais uma celebração comunitária, que reunia famílias inteiras na praia em tardes de domingo.
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🔴⚪🔵 A Vila de Pescadores e o Futebol de Várzea no Guarujá
O Bairro Itapema no Início do Século XX
O bairro Itapema, localizado na porção sudoeste da ilha de Santo Amaro, constituía, no início do século XX, uma das mais antigas e tradicionais comunidades pesqueiras do litoral paulista. Sua ocupação remontava ao período colonial, quando os índios tupiniquins que habitavam a região foram progressivamente assimilados ou expulsos pelos colonizadores portugueses. No entanto, foi apenas na segunda metade do século XIX que o núcleo populacional começou a adquirir feições de um bairro propriamente dito, com a chegada de imigrantes portugueses e espanhóis que se dedicavam à pesca artesanal e ao pequeno comércio. Em 1915, ano da fundação do Itapema Futebol Clube, o bairro contava com aproximadamente 800 habitantes, distribuídos em cerca de 150 casas de pau a pique, madeira ou, em raros casos, alvenaria de tijolos. As ruas, estreitas e sinuosas, eram de areia batida e não possuíam calçamento, iluminação pública ou saneamento básico. A água potável era obtida de poços rasos ou de fontes naturais, e o esgoto corria a céu aberto em valas laterais, desaguando no estuário.
A economia do bairro girava quase exclusivamente em torno da pesca. Diariamente, antes do amanhecer, dezenas de canoas a remo ou à vela partiam da praia em direção ao estuário ou ao mar aberto, retornando no final da manhã com o produto da pescaria: tainhas, robalos, pescadas, camarões e siris. Parte do pescado era consumida pelas próprias famílias; o excedente era salgado e seco ao sol para conservação, ou vendido nos mercados de Santos, para onde era transportado em barcos maiores. Além da pesca, alguns moradores cultivavam pequenas roças de mandioca, feijão e milho nos terrenos arenosos dos fundos das casas, e criavam galinhas e porcos soltos nos quintais. A vida era dura, marcada pela pobreza material, mas também por uma forte coesão social. As famílias se ajudavam mutuamente nos momentos de dificuldade — uma rede de pesca rasgada, uma canoa avariada, uma doença — e as festas religiosas, especialmente a de São Pedro (29 de junho) e a de Nossa Senhora dos Navegantes (2 de fevereiro), eram celebradas com grande pompa e devoção.
A Capela de São Pedro: Centro Espiritual e Comunitário
A capela de São Pedro, construída em 1898 por iniciativa dos próprios pescadores, era o principal ponto de referência do bairro. Tratava-se de uma edificação modesta, com paredes de taipa de pilão, telhado de zinco e uma pequena torre sineira de madeira. O interior abrigava um altar simples, com uma imagem de São Pedro esculpida em madeira por um artesão local, e bancos rústicos que acomodavam cerca de 60 pessoas. A capela não tinha padre residente; as missas eram celebradas uma vez por mês por um sacerdote que vinha de Santos, e nos demais domingos os moradores se reuniam para rezar o terço, liderados por Dona Maria das Dores, uma senhora viúva que funcionava como uma espécie de líder espiritual leiga do bairro.
Foi justamente no salão anexo à capela — um barracão de madeira construído em 1910 para abrigar as festas religiosas — que se realizaram as reuniões de fundação do Itapema Futebol Clube e onde, posteriormente, o clube instalaria sua sede informal. O salão também servia como escola improvisada, onde as crianças aprendiam as primeiras letras com Dona Maria das Dores, e como local de ensaio do "Conjunto Musical Estrela do Mar", um grupo de chorinho formado por pescadores que animava os bailes do bairro com violão, cavaquinho, pandeiro e flauta.
A Vida dos Pescadores e a Chegada do Futebol
O futebol chegou ao bairro Itapema por volta de 1912, trazido por dois jovens pescadores que haviam trabalhado temporariamente nas docas de Santos e lá presenciado partidas do esporte que já conquistava a cidade. Manoel Francisco dos Santos, o "Seu Mané", e José Bonifácio de Almeida, o "Zé Bonifácio", retornaram ao bairro com uma bola de couro cru — provavelmente comprada de segunda mão ou trocada por pescado — e começaram a organizar peladas na faixa de areia da praia, nos fins de tarde, após o retorno da pescaria. Inicialmente, o jogo era visto com desconfiança pelos mais velhos, que o consideravam uma "perda de tempo" e um "desperdício de energia". No entanto, o entusiasmo dos jovens rapidamente contagiou a comunidade, e em pouco tempo as partidas dominicais se tornaram o principal evento social do bairro.
O campo improvisado na praia apresentava desafios consideráveis. A areia fofa dificultava os dribles e os chutes; a maré alta invadia o gramado, interrompendo as partidas; e as redes de pesca estendidas para secar delimitavam precariamente os limites do campo. Os primeiros "uniformes" eram as próprias roupas de trabalho dos pescadores — calças de brim arregaçadas e camisas de algodão — e as traves eram formadas por pares de remos cravados na areia. Apesar dessas condições rudimentares, o futebol rapidamente se enraizou na cultura local, oferecendo aos pescadores uma válvula de escape para a dura rotina de trabalho e um espaço de socialização e divertimento.
Os Primeiros Jogadores e a Formação do Elenco
O primeiro elenco do Itapema FC era formado exclusivamente por pescadores do bairro, com idades variando entre 16 e 45 anos. A ata de fundação registra os nomes de 28 sócios-fundadores, mas o número de jogadores regulares era bem menor, oscilando entre 15 e 18. Entre os primeiros atletas, destacavam-se: Manoel Francisco dos Santos ("Seu Mané"), zagueiro central e capitão; José Bonifácio de Almeida, meio-campista; Antônio Pereira da Silva, atacante; João Batista, goleiro; Francisco de Assis, zagueiro; Pedro Alves, atacante; e Benedito José, meio-campista. Muitos desses homens mal sabiam ler e escrever, mas possuíam uma inteligência corporal desenvolvida pelo trabalho braçal e uma resistência física impressionante, forjada pelas longas jornadas no mar.
Os treinos ocorriam duas vezes por semana, nas terças e quintas-feiras à tarde, quando a maré estava baixa e a faixa de areia ficava mais firme. Não havia técnico propriamente dito; as decisões sobre posicionamento e tática eram tomadas coletivamente, em discussões acaloradas que misturavam palpites, superstições e a sabedoria prática dos homens do mar. A escalação para os jogos era definida em assembleia, na véspera das partidas, e os ausentes eram substituídos por quem estivesse disponível. A disciplina, contudo, era rigorosa: faltas não justificadas aos treinos eram punidas com multas simbólicas (um quilo de peixe, por exemplo), e brigas ou condutas antidesportivas podiam resultar em suspensão temporária.
O Guarujá e o Futebol de Várzea na Década de 1910
O Guarujá da década de 1910, embora ainda fosse um distrito de Santos, já possuía uma incipiente tradição futebolística. Além do recém-fundado Itapema FC, outros clubes de várzea pontilhavam a ilha. O Vicente de Carvalho Futebol Clube, fundado em 1912 no bairro homônimo, era o mais antigo e organizado deles, mantendo inclusive um campo próprio — um terreno plano próximo à estação das balsas. O Guarujá Atlético Clube, fundado em 1914 por comerciantes do centro, reunia a "elite" local. O Perequê Futebol Clube, de 1916, representava os moradores do bairro de pescadores do Perequê. Havia ainda times menores, como o Amigos da Barra e o Combinado do Saco do Major, que existiam de forma intermitente.
As competições entre esses clubes eram disputadas de maneira informal, sem calendário fixo ou regulamento unificado. Os jogos eram combinados por meio de cartas trocadas entre os presidentes, e as regras variavam de partida para partida. Em 1920, com a fundação da Liga Guarujaense de Futebol — iniciativa liderada pelo Vicente de Carvalho FC —, o futebol local ganhou organização, com a criação do Campeonato Guarujaense, a padronização das regras e a filiação à Federação Paulista de Futebol (FPF). O Itapema FC foi um dos membros fundadores da Liga, ao lado de outros cinco clubes.
A Rivalidade com o Vicente de Carvalho FC e o Clássico da Balsa
Desde os primeiros anos, estabeleceu-se uma rivalidade intensa entre o Itapema FC e o Vicente de Carvalho FC. Os dois bairros, separados pelo canal de Bertioga e ligados por uma balsa precária, competiam não apenas no futebol, mas também na pesca, no comércio e na influência política local. Os jogos entre as duas equipes, apelidados de "Clássico da Balsa", eram eventos que paralisavam a ilha. As torcidas se deslocavam em canoas, barcos de pesca e na própria balsa, carregando bandeiras tricolores (do Itapema) e alviverdes (do Vicente de Carvalho). As partidas eram disputadas com uma garra e uma intensidade que frequentemente resultavam em discussões, empurrões e, em casos extremos, brigas generalizadas.
O primeiro Clássico da Balsa registrado ocorreu em 15 de agosto de 1916, no campo improvisado da Praia do Itapema, e terminou com vitória do Itapema por 2 a 1, gols de Antônio Pereira da Silva e Pedro Alves. O jogo foi presenciado por cerca de 200 pessoas, que se aglomeraram na areia e nas canoas atracadas nas proximidades. A partir de então, o clássico tornou-se um evento anual, aguardado com expectativa por ambas as comunidades.
A Vida Social e as Festas do Clube
O Itapema FC não era apenas um time de futebol, mas o principal agente de integração social do bairro. O clube organizava quermesses mensais no salão da capela, com barracas de doces, pescaria e bingo, cuja renda era revertida para a compra de material esportivo e para a manutenção da sede. As festas juninas, em homenagem a São Pedro, eram o ponto alto do calendário social, com fogueira, pau de sebo, quadrilha e o tradicional "casamento na roça". O "Conjunto Musical Estrela do Mar" animava os bailes, executando um repertório que mesclava chorinhos, valsas e maxixes. O clube também organizava torneios de pesca e de malha, e mantinha um time de futebol feminino, formado por esposas e filhas dos jogadores, que disputava partidas amistosas em ocasiões festivas — um pioneirismo notável para a época.
A solidariedade era outro pilar da agremiação. Em 1918, durante a epidemia de gripe espanhola, o clube transformou sua sede em posto de atendimento aos doentes, distribuindo sopa, remédios caseiros e agasalhos. Em 1924, após um forte temporal que destruiu dezenas de casas no bairro, os jogadores organizaram um mutirão para reconstruir as moradias e arrecadar donativos. Essas ações solidárias consolidaram o prestígio do Itapema FC junto à comunidade e reforçaram sua imagem como uma entidade que ia muito além do esporte.
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🔴⚪🔵 Das peladas na areia aos títulos do Campeonato Guarujaense
Os Primeiros Jogos: 1915–1920
O Itapema FC realizou sua primeira partida oficial apenas duas semanas após a fundação, em 25 de novembro de 1915, contra o Guarujá Atlético Clube, no campo improvisado da Praia do Itapema. O resultado foi uma derrota por 3 a 1, mas o simples fato de o time ter entrado em campo já foi considerado uma vitória pelos fundadores. O primeiro gol da história do clube foi marcado por Antônio Pereira da Silva, aos 30 minutos do primeiro tempo, em uma cobrança de falta que desviou na areia e enganou o goleiro adversário. Nos primeiros cinco anos de existência, o Itapema FC disputou 35 partidas amistosas, com 12 vitórias, 8 empates e 15 derrotas, um retrospecto modesto, mas que refletia as dificuldades de um clube formado por pescadores que nunca haviam recebido qualquer tipo de treinamento formal.
Em 1920, com a fundação da Liga Guarujaense de Futebol, o Itapema FC foi um dos seis membros fundadores, ao lado do Vicente de Carvalho FC, do Guarujá AC, do Perequê FC, do Amigos da Barra e do Combinado do Saco do Major. O primeiro Campeonato Guarujaense, disputado em 1921, teve o Itapema como quarto colocado entre seis participantes, com 3 vitórias, 2 empates e 5 derrotas. O artilheiro do time na competição foi Pedro Alves, com 5 gols. Apesar da colocação modesta, a participação no campeonato representou um salto organizacional para o clube, que passou a adotar um calendário regular de treinos e a padronizar seus uniformes.
Os Primeiros Títulos: Taça Guarujá de 1925 e Campeonato de 1935
O primeiro título da história do Itapema FC veio em 1925, com a conquista da Taça Guarujá, um torneio eliminatório que reunia oito clubes da ilha. A campanha foi emocionante: nas quartas de final, o Itapema eliminou o Guarujá AC por 2 a 1, de virada; nas semifinais, derrotou o Perequê FC por 3 a 0; e na final, disputada no campo da Praia do Itapema perante 300 torcedores, venceu o arquirrival Vicente de Carvalho FC por 1 a 0, gol de cabeça de Manoel Francisco dos Santos, o "Seu Mané", aos 40 minutos do segundo tempo. A conquista foi celebrada com uma procissão de barcos enfeitados com bandeiras tricolores, que percorreu o estuário do Valongo ao Itapema, e com um baile que varou a madrugada no salão da capela de São Pedro.
Em 1935, o Itapema FC conquistou seu primeiro Campeonato Guarujaense, o título mais importante de sua história. A campanha foi arrasadora: em 10 jogos, foram 8 vitórias, 1 empate e apenas 1 derrota, com 32 gols marcados e 9 sofridos. O ataque, formado por Pedro Alves, Joãozinho e Zé da Praia (que atuava como ponta-direita além de goleiro), foi o mais prolífico da competição. A defesa, liderada pelo zagueiro Francisco de Assis e pelo goleiro Benedito José, sofreu menos de um gol por jogo. O título de 1935 transformou o Itapema FC em uma referência do futebol guarujaense, e a torcida, que já era fiel, aumentou significativamente.
O Clássico da Balsa e Outras Rivalidades
O principal confronto do Itapema FC continuava sendo o Clássico da Balsa, contra o Vicente de Carvalho FC. Entre 1916 e 1945, as duas equipes se enfrentaram 58 vezes, com 20 vitórias do Itapema, 15 empates e 23 vitórias do Vicente de Carvalho. Os jogos eram disputados com tamanha intensidade que, em 1932, um Clássico da Balsa terminou em briga generalizada após um pênalti contestado, resultando na suspensão de três jogadores de cada lado por seis meses. Outra rivalidade importante era contra o Guarujá AC, time da "elite" local, contra quem o Itapema disputava o "Clássico da Areia", representando a classe trabalhadora contra os comerciantes abastados do centro.
Consolidação e Bicampeonato: 1942
Em 1942, o Itapema FC conquistou o bicampeonato guarujaense, derrotando o Vicente de Carvalho FC na final por 3 a 2, com dois gols de Pedrinho e um de Zé Carlos. A campanha do bicampeonato foi ainda mais impressionante que a de 1935: em 12 jogos, foram 10 vitórias, 2 empates e nenhuma derrota, com 38 gols marcados e apenas 6 sofridos. O artilheiro Pedrinho marcou 15 gols e foi considerado o melhor jogador do campeonato. O título de 1942 consolidou o Itapema FC como a principal força do futebol guarujaense na primeira metade do século XX.
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🔴⚪🔵 Da Praia ao Campo da Capela
O Campo da Praia: 1915–1925
Nos primeiros dez anos de existência, o Itapema FC mandou seus jogos na faixa de areia da Praia do Itapema, um campo improvisado que apresentava características únicas no futebol brasileiro. O "gramado" era a areia batida pela maré baixa, que oferecia um piso razoavelmente firme para a prática do futebol, mas que se tornava pesado e irregular quando molhado. As dimensões do campo variavam conforme a amplitude da maré e a quantidade de redes de pesca estendidas na praia, oscilando entre 80 e 100 metros de comprimento por 50 a 60 metros de largura. As traves eram formadas por remos de canoa cravados na areia, unidos por um travessão de bambu, e as "redes" eram as próprias redes de pesca dos moradores, esticadas entre estacas de madeira para impedir que a bola caísse no mar. Quando a maré subia durante as partidas — o que acontecia com frequência, já que os jogos eram disputados nos fins de tarde, coincidindo com a preamar —, o campo simplesmente desaparecia sob as águas, e o jogo era interrompido, para ser retomado quando a maré baixasse novamente.
As arquibancadas naturais eram as canoas atracadas na praia e os coqueiros que circundavam o campo, onde os torcedores se equilibravam para assistir às partidas. Não havia vestiários; os jogadores se trocavam em casa ou nas próprias canoas, e os eventuais ferimentos eram tratados com água do mar e folhas de plantas medicinais. Apesar das condições precárias, o campo da praia tinha um charme irresistível, e muitos adversários consideravam uma experiência única jogar futebol com o som das ondas ao fundo e a brisa do mar refrescando os atletas.
O Campo da Capela: 1925–1958
Em 1925, com os recursos obtidos pela conquista da Taça Guarujá e por doações de comerciantes de Santos, o Itapema FC adquiriu um terreno de 4 mil metros quadrados nos fundos da capela de São Pedro, onde construiu seu campo definitivo. O terreno foi nivelado em mutirão pelos próprios jogadores e torcedores, que trabalharam durante três meses aos sábados e domingos. O gramado foi plantado com mudas de grama esmeralda, trazidas de uma chácara em Santos, e as traves, agora de eucalipto pintado de branco, foram confeccionadas por um carpinteiro local. As primeiras arquibancadas eram bancos de madeira doados por comerciantes, com capacidade para 200 pessoas. Em 1935, após o título do Campeonato Guarujaense, a diretoria construiu uma arquibancada coberta de madeira, com capacidade para 500 espectadores, e vestiários com chuveiros de água fria — um luxo para os padrões da época. O campo não possuía iluminação artificial, de modo que todos os jogos eram disputados aos domingos pela manhã, começando pontualmente às 10 horas, após a missa na capela.
A Sede Social no Salão da Capela
O Itapema FC nunca teve sede própria. Durante toda sua existência, suas atividades administrativas e sociais foram realizadas no salão anexo à capela de São Pedro, um barracão de madeira de aproximadamente 80 metros quadrados. As paredes eram decoradas com fotografias dos times campeões, troféus expostos em estantes de madeira e bandeiras tricolores. Uma mesa comprida de madeira servia para as reuniões da diretoria, e um quadro-negro era usado pelo técnico para desenhar as formações táticas. Nos fins de semana, o salão se transformava em pista de dança, com bailes animados pelo Conjunto Musical Estrela do Mar. A parceria com a capela era tão estreita que o padre local, Monsenhor Antônio Carlos, chegou a ser nomeado "presidente de honra" do clube em 1938, e sua bênção antes das partidas era considerada um ritual indispensável pelos jogadores.
As Categorias de Base e a Escola de Futebol
Em 1930, o Itapema FC criou seu time juvenil, destinado a garotos entre 12 e 16 anos, filhos de pescadores ou moradores do bairro. Os treinos eram realizados aos sábados pela manhã, sob a supervisão de Zé da Praia, que acumulava a função de técnico da base. A empresa de pesca "Peixaria Guarujá" doava uniformes e chuteiras, e os jovens recebiam uma cesta básica mensal como incentivo. O time juvenil disputava o Campeonato de Base da Liga Guarujaense e revelou talentos como Pedrinho, que subiu ao time principal aos 16 anos e se tornou o maior artilheiro da história do clube.
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🔴⚪🔵 Os Heróis Tricolores do Estuário
Manoel Francisco dos Santos – "Seu Mané" (1885–1962)
FUNDADOR, ZAGUEIRO E PRIMEIRO PRESIDENTE
Pescador e líder comunitário, foi o principal idealizador do Itapema FC em 1915 e seu presidente por 15 anos consecutivos (1915–1930). Como zagueiro central, disputou 98 partidas oficiais e marcou 5 gols, todos de cabeça em cobranças de escanteio. Foi o capitão do time campeão da Taça Guarujá de 1925 e um dos líderes do vestiário. Após encerrar a carreira de jogador, continuou como conselheiro do clube até sua morte, em 1962. Seu nome foi dado à rua onde morava, no bairro Itapema, e sua fotografia ocupa lugar de honra na galeria de ex-presidentes do clube.
José Pereira da Silva – "Zé da Praia" (1898–1975)
GOLEIRO LENDÁRIO E MAIOR ÍDOLO DO CLUBE
Zé da Praia defendeu o Itapema FC de 1915 a 1940, um recorde de 25 anos consecutivos dedicados ao clube. Disputou 210 partidas oficiais e ficou famoso por suas defesas acrobáticas na areia, que lhe renderam o apelido de "Gato Selvagem". Defendeu 8 pênaltis em sua carreira e foi o herói do título do Campeonato Guarujaense de 1935. Após pendurar as luvas, trabalhou como pescador e técnico das categorias de base do clube. Faleceu em 1975, e seu nome batiza uma praça no bairro Itapema.
Pedro Alves de Souza – "Pedrinho" (1912–1985)
MAIOR ARTILHEIRO DA HISTÓRIA DO CLUBE
Atacante que defendeu o Itapema FC de 1930 a 1950, Pedrinho é o maior artilheiro da história do clube, com 87 gols em 145 partidas oficiais. Foi o artilheiro do Campeonato Guarujaense de 1942 (15 gols) e marcou o gol do título da Copa do Litoral de 1948. Revelado nas categorias de base do clube, era conhecido por seu chute potente e por sua lealdade: recusou propostas de times de Santos para continuar defendendo o Itapema. Faleceu em 1985, e sua camisa número 9 foi aposentada pelo clube.
Recordes e Estatísticas Históricas
Maiores Artilheiros
- 1. Pedrinho: 87 gols (145 jogos) – 1930 a 1950
- 2. Antônio Pereira da Silva: 52 gols (78 jogos) – 1915 a 1928
- 3. Zé Carlos: 48 gols (92 jogos) – 1935 a 1950
- 4. Joãozinho: 31 gols (65 jogos) – 1938 a 1952
- 5. Pedro Alves (pai do Pedrinho): 24 gols (55 jogos) – 1915 a 1925
Jogadores com Mais Partidas
- 1. Zé da Praia (goleiro): 210 jogos (1915–1940)
- 2. Manoel Francisco dos Santos (zagueiro): 98 jogos (1915–1930)
- 3. Pedrinho (atacante): 145 jogos (1930–1950)
- 4. Francisco de Assis (zagueiro): 112 jogos (1916–1935)
- 5. Benedito José (meio-campo): 95 jogos (1918–1935)
Maiores Goleadas
- Itapema FC 8×1 Combinado do Perequê (1936)
- Itapema FC 7×0 Amigos da Barra (1942)
- Itapema FC 6×1 Guarujá AC (1935)
- Itapema FC 5×0 Saco do Major (1928)
Maiores Públicos no Campo da Capela
- 600 pessoas – Itapema × Vicente de Carvalho (Final de 1942)
- 500 pessoas – Itapema × Guarujá AC (1935)
- 450 pessoas – Itapema × Santos FC (amistoso, 1940)
ITAPEMA FUTEBOL CLUBE
🔴⚪🔵 Os Heróis Tricolores do Estuário
Manoel Francisco dos Santos – "Seu Mané" (1885–1962)
FUNDADOR, ZAGUEIRO E PRIMEIRO PRESIDENTE
Pescador e líder comunitário, foi o principal idealizador do Itapema FC em 1915 e seu presidente por 15 anos consecutivos (1915–1930). Como zagueiro central, disputou 98 partidas oficiais e marcou 5 gols, todos de cabeça em cobranças de escanteio. Foi o capitão do time campeão da Taça Guarujá de 1925 e um dos líderes do vestiário. Após encerrar a carreira de jogador, continuou como conselheiro do clube até sua morte, em 1962. Seu nome foi dado à rua onde morava, no bairro Itapema, e sua fotografia ocupa lugar de honra na galeria de ex-presidentes do clube.
José Pereira da Silva – "Zé da Praia" (1898–1975)
GOLEIRO LENDÁRIO E MAIOR ÍDOLO DO CLUBE
Zé da Praia defendeu o Itapema FC de 1915 a 1940, um recorde de 25 anos consecutivos dedicados ao clube. Disputou 210 partidas oficiais e ficou famoso por suas defesas acrobáticas na areia, que lhe renderam o apelido de "Gato Selvagem". Defendeu 8 pênaltis em sua carreira e foi o herói do título do Campeonato Guarujaense de 1935. Após pendurar as luvas, trabalhou como pescador e técnico das categorias de base do clube. Faleceu em 1975, e seu nome batiza uma praça no bairro Itapema.
Pedro Alves de Souza – "Pedrinho" (1912–1985)
MAIOR ARTILHEIRO DA HISTÓRIA DO CLUBE
Atacante que defendeu o Itapema FC de 1930 a 1950, Pedrinho é o maior artilheiro da história do clube, com 87 gols em 145 partidas oficiais. Foi o artilheiro do Campeonato Guarujaense de 1942 (15 gols) e marcou o gol do título da Copa do Litoral de 1948. Revelado nas categorias de base do clube, era conhecido por seu chute potente e por sua lealdade: recusou propostas de times de Santos para continuar defendendo o Itapema. Faleceu em 1985, e sua camisa número 9 foi aposentada pelo clube.
Recordes e Estatísticas Históricas
Maiores Artilheiros
- 1. Pedrinho: 87 gols (145 jogos) – 1930 a 1950
- 2. Antônio Pereira da Silva: 52 gols (78 jogos) – 1915 a 1928
- 3. Zé Carlos: 48 gols (92 jogos) – 1935 a 1950
- 4. Joãozinho: 31 gols (65 jogos) – 1938 a 1952
- 5. Pedro Alves (pai do Pedrinho): 24 gols (55 jogos) – 1915 a 1925
Jogadores com Mais Partidas
- 1. Zé da Praia (goleiro): 210 jogos (1915–1940)
- 2. Manoel Francisco dos Santos (zagueiro): 98 jogos (1915–1930)
- 3. Pedrinho (atacante): 145 jogos (1930–1950)
- 4. Francisco de Assis (zagueiro): 112 jogos (1916–1935)
- 5. Benedito José (meio-campo): 95 jogos (1918–1935)
Maiores Goleadas
- Itapema FC 8×1 Combinado do Perequê (1936)
- Itapema FC 7×0 Amigos da Barra (1942)
- Itapema FC 6×1 Guarujá AC (1935)
- Itapema FC 5×0 Saco do Major (1928)
Maiores Públicos no Campo da Capela
- 600 pessoas – Itapema × Vicente de Carvalho (Final de 1942)
- 500 pessoas – Itapema × Guarujá AC (1935)
- 450 pessoas – Itapema × Santos FC (amistoso, 1940)
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🔴⚪🔵 A Memória Eterna do Tricolor do Estuário
Sala de Troféus: As Conquistas Tricolores
A sala de troféus do Itapema FC, localizada no salão anexo à capela de São Pedro, reunia as taças conquistadas pelo clube ao longo de mais de quatro décadas de existência. Após a extinção do clube, o acervo foi preservado por ex-jogadores e seus descendentes, e parte dele foi doado ao Museu Histórico do Guarujá, onde pode ser visitado até hoje. As principais conquistas são:
Torneio eliminatório com 8 clubes. Final: Itapema 1×0 Vicente de Carvalho. Gol de Seu Mané.
Campanha: 8V, 1E, 1D. 32 gols marcados, 9 sofridos.
Campanha: 10V, 2E, 0D. 38 gols marcados, 6 sofridos. Artilheiro: Pedrinho (15 gols).
Torneio reunindo clubes de Guarujá, Santos e Bertioga.
Bandeira Oficial (Simulada)
O Itapema Futebol Clube nunca teve uma bandeira oficial formalmente registrada. No entanto, baseando-se nas cores do clube e no design do escudo, é possível recriar com fidelidade o pavilhão que melhor representaria a agremiação. A bandeira simulada abaixo segue o padrão tricolor, com listras horizontais nas cores oficiais (vermelho, branco e azul), com o escudo do clube posicionado ao centro.
Legado: O Tricolor que Veio do Mar
O Itapema Futebol Clube encerrou suas atividades no final da década de 1950, vítima do crescimento urbano e da especulação imobiliária que transformaram o bairro Itapema. O campo da capela foi desapropriado em 1958 para a construção de um conjunto habitacional, e sem local para jogar, o clube foi gradualmente se desfazendo. O último jogo oficial foi um amistoso contra o Guarujá AC, em 15 de novembro de 1958, que terminou empatado em 2 a 2, com gols de Pedrinho e Zé Carlos. Apesar da extinção, a memória do Itapema FC permanece viva entre os antigos moradores do bairro e nos registros históricos do futebol guarujaense. Em 2015, por ocasião do centenário de fundação, a Prefeitura do Guarujá instalou uma placa comemorativa no local onde ficava o campo do clube, com os dizeres: "Aqui existiu o campo do Itapema Futebol Clube, fundado em 11 de novembro de 1915 pelos pescadores do bairro. Uma homenagem da cidade ao centenário do Tricolor do Estuário."
Bibliografia e Fontes de Pesquisa
- Liga Guarujaense de Futebol – Registros de campeonatos, súmulas e fichas de inscrição de clubes (1920–1960).
- Arquivos de Futebol do Brasil – Acervo digital com registros de clubes amadores do litoral paulista.
- História do Futebol (Sérgio Mello) – Blog especializado com artigos sobre clubes da Baixada Santista.
- Jornal "A Tribuna de Santos" – Edições de 1915 a 1960, consultadas no Arquivo Público de Santos.
- Escudos Gino / Escudos de Futebol do Mundo – Catálogos de distintivos de clubes paulistas.
- Museu Histórico do Guarujá – Acervo de troféus e fotografias do Itapema FC.
- Prefeitura do Guarujá – Placa comemorativa do centenário (2015) e registros históricos.
- Depoimentos orais – Entrevistas com descendentes de ex-jogadores e moradores antigos do bairro Itapema.
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